Jorge Jesus fala ao jornal Ojogo
"Se tiver de arranjar inimigos, não hesitarei"
O JOGO O que justifica a troca de um clube estável na liga principal por um desafio arriscado na Liga de Honra?
JORGE JESUS Houve vários factores que me levaram a aceitar este desafio. Um é o facto de me basear no sentimento e na paixão. O Belenenses é um clube onde já joguei e ao qual tenho alguma ligação sentimental. Depois, apresentaram-me um contrato de três anos – por objectivos –, que me proporcionava um desafio em termos de futuro desportivo mais vantajoso do que no União de Leiria.
P Foi complicado tomar esta opção?
R Não foi uma decisão fácil. Tinha uma ligação muito forte a Leiria – porque foi um clube onde também joguei – e ao presidente. Por vezes, quando se está de fora, ouve-se falar de pessoas que acabam por ser uma desilusão, mas descobri um presidente que, no futebol, vê as coisas com uma antecipação muito grande. E é por isso que o Leiria é um clube estável em termos desportivos e financeiros. Deu-me um grande gozo trabalhar com ele.
P No Belenenses, há um desafio, que é subir de divisão. No Leiria, existia esse desafio? O Leiria chegou a falar-lhe de objectivos para a próxima temporada, como a Taça UEFA?
R Foi uma opção pela estabilidade, porque é um contrato de três anos. Subir o Belenenses é um desafio, uma ambição. Já subi três equipas à primeira liga e sei que é mais difícil fazer isso do que manter uma equipa no escalão principal. O Leiria fez um sétimo lugar, mesmo assim poderia ter atingido os cinco primeiros lugares. Talvez fosse pedir demais, mas, tendo em conta o que a equipa fez nos dois últimos terços do Campeonato... Fomos uma equipa muito crescida. Custou-me muito deixar aquele grupo. Apanhei um plantel com grande valor individual e colectivo e, desde que sou treinador, foi o grupo mais unido que treinei. Sei que, no próximo ano, tinha como objectivo fazer melhor do que o sétimo lugar e sei que o iríamos conseguir.
P E o que pode fazer no Belenenses?
R O Belenenses também é um clube com grande projecção nacional, e já há muito tempo que ambicionava trabalhar no Restelo. Vou com a convicção de ajudar o Belenenses a voltar à Liga. Não há outro discurso não há alternativa.
P Ficou surpreendido com a descida de divisão?
R Fiquei. Nas últimas jornadas, senti que o Belenenses podia cair, embora, depois de ter feito os 38 pontos, tenha pensado que o clube se iria manter. Mas a nossa realidade agora é a Liga de Honra – não há nada a fazer.
P Um dos projectos equacionados durante a última época foi a criação de uma equipa B. Seria uma ideia útil?
Está fora do contexto actual. Há uns anos, talvez fosse interessante, mas neste momento não. Não é isso que faz crescer a formação. Há outras formas de dar mais qualidade de trabalho aos treinadores dessa área e às equipas, que passam também por haver espaços em quantidade para desenvolver a actividade.
P Seria importante o Belenenses ter o seu próprio centro de formação e estágios?
R Sem dúvida. A área da formação também vai passar por mim. Vai ser liderada por alguém em quem acredito, com capacidades adequadas ao cargo, e que fará o elo de ligação com a equipa técnica principal. Não é por acaso que, quando estive no Estrela da Amadora, o clube vendeu vários jogadores lá formados, como o Jorge Andrade, Miguel, Rodolfo ou Paulo Ferreira. O Estrela sempre teve técnicos de grande qualidade nas camadas jovens. As coisas não acontecem por acaso, mas sim porque há trabalho. Espero que o Belenenses, nos próximos anos, possa ter jogadores capazes de gerarem mais-valias, embora eu considere que alguns já lá estão, como o Rolando e o Rúben Amorim.
P Os jogadores emprestados vão regressar para fazer a pré-época?
R Sim, principalmente o Eliseu e o Gonçalo Brandão.
P E o Jorge Tavares?
R Ainda não decidi...
P Conta com os jogadores que estão em final de contrato?
R Vai depender das condições económicas que peçam. Tem de haver um equilíbrio, mas todos vão ser abordados no sentido de se saber o que pretendem para a próxima época. É evidente que alguns terão mais hipóteses de ficar do que outros. Digamos que 90 por cento do grupo vai continuar.
P Já consegue fazer um diagnóstico quanto às posições que terão de ser reforçadas?
R O Belenenses precisa de jogadores capazes de dar velocidade e largura ao seu jogo, sobretudo no sector ofensivo.
P Já consegue fazer um diagnóstico quanto às posições que terão de ser reforçadas?
R O Belenenses precisa de jogadores capazes de dar velocidade e largura ao seu jogo, sobretudo no sector ofensivo.
P Flanqueadores?
R Também. Estamos à procura de atletas com essas características, mas não é fácil. Os que há já têm vínculo para a próxima época. Não é fácil encontrar jogadores em final de contrato dentro do perfil que pretendemos. Temos de os descobrir, porque sabemos o que queremos. Quem e onde, não sei. Ou melhor, até sei, mas são jogadores fora do nosso alcance.
P Quanto à defesa, está mais a seu gosto?
R Da defesa e meio-campo, praticamente todos os jogadores vão ficar no Belém. A não ser que não queiram...
P Já sabe com quem pode contar para a próxima época? Fala-se das saídas de Pelé, Meyong, Zé Pedro…
R O Meyong é um jogador que tem mercado e forçosamente irá sair. Em termos económicos, até dará alguma estabilidade ao clube. Se me perguntarem se gostava de ficar com o Meyong e o Silas, é claro que sim; se há capacidade para fazer face aos contratos que eles têm, eu digo que não. Mas gostaria de deixar uma palavra de apreço a alguns jogadores do Belenenses, porque eles têm sido muito compreensivos nesta altura de renegociação dos contratos.
P Neste momento, considera, portanto, fundamental resolver as questões com os jogadores do plantel e só depois avançar para as contratações?
R Temos de contratar rapidamente um director-desportivo. Penso que terá de ser uma pessoa com experiência na área e que eu conheça, porque, para mim, será mais um jogador. Além disso, será necessário um secretário-técnico.
P Essa é, de facto, uma das suas imagens de marca. Será também esse o rosto da equipa?
R Vai ser, de certeza, mas não apenas dentro do balneário. Entreguei um organigrama ao presidente onde estão definidas as directrizes para todos os cargos. Do secretário-técnico ao director-desportivo, ao departamento clínico, etc. E quem fugir dos parâmetros terá problemas comigo. E se, para resolver alguns problemas, tiver de arranjar inimigos, não hesitarei. Não vou defender interesses pessoais.
P As suas funções limitam-se ao trabalho de campo?
R O clube precisa de reorganizar toda a estrutura desportiva e, sem ela, não haverá êxito desportivo. Vim para o Belenenses para reorganizar todo o departamento desportivo. Eu e o presidente estamos em sintonia neste aspecto. Sem organização e disciplina, também não haverá sucesso. Não basta ter uma boa equipa. Toda a gente que vai trabalhar comigo irá perceber que este é um clube muito grande, onde nós temos de valorizar a instituição. O clube está acima de qualquer jogador. Quem não pensar como eu, dificilmente trabalhará comigo… Seja em que área for.

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