Somos um país de gente complicada e ainda por cima os mais complicadores ganham, não sei porque mistérios, lugares de decisão que, muitas vezes, transformam em indecisão. Aqui, sim, somos bons, somos bons em baralhar os factos mais simples desta vida porque temos especializados em construir labirintos mais complexos que o imaginado no mítico dédalo. Este caso Mateus nada tem de especial, não se esconde na hermeticidade dos assuntos tabus, não precisa de ser descodificado, só precisa de ser analisado de uma forma lógica, procurando entre a camuflagem a sua origem. E a sua origem é clara como água, houve um clube que usou de processo ilícito, à luz das regras dos campeonatos a que todos os concorrentes estão obrigados, para inscrever um jogador. Este é o âmago da questão e apenas esta fuga ardilosa aos regulamentos deve ser julgada. O Belenenses denunciou a irregularidade e quer que se faça justiça, aliás é o Belenenses que faz o papel de vilão pelo ponto de vista dos dirigentes do Gil Vicente, mas se não fosse o Belenenses seria a Académica, que se salvou da descida na última jornada, a irregularidade havia de provocar insurgência num daqueles clubes. Como provocou. Não percebo, e creio que a maioria dos adeptos do futebol também não, onde reside a dificuldade do julgamento de um acto ilegal que um certo tipo de ergologia directiva provocou, não se sabendo se intencionalmente, se por leviandade, que os clubismos exacerbados transportam na bolsa marsupial, se por ingénua confiança nos poderes do futebol, a verdade é que os representantes do Gil Vicente não procederam de harmonia com as regras que todos os outros clubes respeitaram. Logo, estes ficaram em desvantagem. Mas agir rapidamente não é uma especialidade cá da terra, ora, não agindo decididamente em tempo útil dá tempo dá espaço às fabulações e respectivas obnubilações, sempre favoráveis aos que não têm argumentos plausíveis para esgrimir à volta da questão fulcral. Parece-me aconselhável, portanto, que o caso Mateus seja resolvido rapidamente e esta será a intenção do juiz Adriano Afonso, que me parece fazer bem em não aceitar as demissões de Pedro Mourão e de Frederico Cebola, membros do CD da Liga, homens com passado limpo e afastados do processo Apito Dourado. É provável que aqueles senhores mantenham o mesmo critério que usaram na análise do caso e que, pelos motivos conhecidos, aparentemente ínvios, sofreram surpreendente alteração, mas eu acho que eles se limitaram a julgar com naturalidade, de forma correcta e icástica, realmente de harmonia com a simplicidade do caso. E não vejo que possa haver grandes impedimentos à aplicação da justiça, dependendo isso do clube que for condenado, mas se a CD da Liga aplicar, coerentemente, a punição respectiva ao Gil Vicente, este clube vai recorrer para o Conselho de Justiça da FPF e este organismo então terá de decidir em definitivo, não me parecendo lógico que deixe arrastar o caso. Trata-se, obviamente, de uma solução alcançada pela via do direito e não uma solução administrativa como já houve outras no conspurcado futebol português, daí eu não estar de acordo com a salomónica opinião do dr. José Guilherme Aguiar, personalidade conhecida do nosso Association, que defende o alargamento do Campeonato através do aproveitamento de uma brecha na Lei de Bases, que resume a 32 clubes a composição das Ligas profissionais, mas não especifica a sua distribuição. Não concordo com o expediente, mas considero muito hábil a posição assumida pelo antigo director executivo da Liga. Hábil e subtilmente cristã. Diverti-me imenso com a crónica da Leonor, mas acho que faltou um gesto à real Assembleia da República, que seria o de pedir à generosa rainha de Inglaterra, nossa estrénua aliada, a mercê de podermos distinguir com o título de Sir a figura exemplar de bom cidadão que o seu especial convidado tanto merece. E já agora que estou a navegar num mar de ondas ácidas, pergunto se os membros do governo e similares pagaram as passagens, as estadas e os bilhetes de entrada nos estádios alemães onde, como todos calculamos, ajudaram a empolgar os jogadores nacionais, sem outra intenção que não fosse vê-los nos seus harmoniosos exercícios.
Homero Serpa in ABOLA